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Carta Aberta

Nossa Caminhada — Carta de uma Esposa de Seminarista

Nossa Caminhada

reflexões anônimas sobre fé, família e formação

Carta de uma Esposa de Seminarista — A Vida que o Seminário Não Vê

Eu sentei com o meu caderno e com a minha caneta, mas o tempo corre, e eu não tenho mais tempo de escrever as coisas à mão, como eu sei que muitos de vocês também não têm. E eu não tenho mais tempo porque tenho que fazer a minha vez e a do meu marido. Os meus anos de esposa de seminarista têm sido anos de mãe solo. Eu imaginava que seria difícil, mas não imaginava que seria tão exaustivo, tão pesado, tão desgastante a ponto de minar a vida espiritual, emocional e física do meu marido e da nossa família. Enquanto nossos maridos trabalham de dia e enfrentam à noite uma carga de estudos praticamente desumana, nós, esposas, sustentamos sozinhas filhos, casa, rotina, sustento, cuidados diários. A vivência dentro do Seminário transforma a vida familiar em um campo de batalha silencioso. O chamado pode ter vindo em qualquer momento da vida, mas isso não deveria tornar a experiência do casamento e da família penosa ou negligenciada. Pregamos sobre a bênção de ter filhos, sobre como eles são presentes do Senhor. Mas o Seminário, muitas vezes, transforma essa bênção em crítica velada: “Não podia escolher outro momento? Sua vida já não é difícil demais?” Como se o Seminário fosse mais importante do que a vida da esposa, do marido e dos filhos. Como se confiar na providência de Deus fosse secundário diante de notas, horários e cargas acadêmicas. E enquanto as famílias sofrem, os pastores formados aqui saem soltos para pastorear outras famílias, muitas vezes repetindo os mesmos padrões que destruíram suas próprias casas. O Seminário cria famílias disfuncionais, negligencia esposas e filhos, e depois envia esses líderes para pastorear como se nada tivesse acontecido. E se algo grave acontece — doença mental, suicídio, colapso emocional — sempre se diz: “O problema é do seminarista, da esposa, da vida espiritual daquela pessoa.” Nunca se reconhece que a situação em que eles foram colocados, a solidão a que foram submetidos, a falta de cuidado pastoral consistente e humano, contribuiu para isso. Todo mundo vê, todo mundo sabe, todo mundo reclama. E por quê? Por que, depois de três gerações de seminaristas e famílias sofrendo o mesmo, nada muda? Por que o Seminário continua repetindo os mesmos erros, como se nada estivesse errado? Por que a piedade, que deveria ser prática, não se manifesta onde mais é necessária: no cuidado com aqueles que vivem dentro desta instituição? O que dizer quando, na primeira aula magna do ano, ouvimos, de professores e diretores, que “não importa se sua mãe, sua esposa ou seu filho morrerem; a falta não será abonada, a prova não terá outra oportunidade”? Isso mostra piedade? Isso mostra amor? Isso mostra que o Seminário olha para Jesus? Ou é a produção de líderes mais preocupados com regras do que com vidas humanas, sepulcros caiados, fariseus do século XXI, conhecedores das Escrituras, mas incapazes de demonstrar compaixão real? Eu clamo: que haja mudança real. Que se olhe para as famílias, para os corpos, para os corações e para a vida espiritual de cada seminarista. Que os professores e diretores que cobram excelência acadêmica também pratiquem excelência humana. Que o Seminário cumpra o seu verdadeiro chamado: formar pastores piedosos, íntegros e humanos, e não perpetuar ciclos de sofrimento. Este é o clamor de uma esposa de seminarista. Que o Seminário se olhe no espelho, que se questione e que faça o que precisa ser feito. Porque, se há 30 anos tudo é assim, então há algo estruturalmente errado, e continuar fazendo do mesmo jeito é um fracasso diante de Deus e da responsabilidade que têm sobre vidas e famílias.

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